domingo, 5 de abril de 2009

Um amor platônico

Em uma manhã ensolarada, aula de geografia, olhos apreensivos e a velha ansiedade. Olho ao redor de mim e analiso cada moça. Loiras, morenas e ruivas, qual delas me identifico mais?

Os dias passam e vou conhecendo-as, criando vínculos e estabelecendo amizades. No entanto, apenas uma despertou o meu interesse. Não que ela fosse a mais bela ou a mais sábia, mas tinha uma doçura que encantava a minha alma, arrepiava meu corpo, fazia meu coração bater mais forte.

Pele branca, olhos verdes, cabelos castanhos encaracolados, rosto arredondado, busto e quadris bem definidos, esta era a sua estética. No começo sua aparência parecia-me abstrata, se bem que com o tempo, na medida em que o meu sentimento aumentava, passou a adquirir uma harmonia de traços, formas e curvas, o que aumentava a minha atração e o meu desejo.

Aproximei-me cada vez mais, já era o seu melhor amigo, conselheiro e ponto de referência. Contudo, eu não queria somente isso, queria mais. Queria penetrar no seu coração e deixar uma semente, que com aguar dos dias, desse origem a um pequeno broto de paixão que quando finalmente desabrochasse, se transformasse em uma história de amor.

O tempo passa e eu já não conseguia mais conter a explosão do sentimento que estava dentro de mim. A timidez parou de bloquear minhas ações e a emoção assumiu o controle de meus atos. Até que de uma maneira que ela não esperava, roubei-lhe um beijo.

Aquilo transformou a sua fisionomia, que passou de um sorriso para um aspecto de raiva. Virou-me o olhar de uma forma que me deixou constrangido e fez com que lhe pedisse desculpa.

Naquele momento suspeitei que poderia tratar-se de um amor platônico e as dúvidas começaram a habitar minha mente. Eu não sabia ao certo como agir. Desistir daquele amor ou não, eis a questão. Até que cheguei à conclusão de que lutaria pela sua conquista.

Passei a fazer de tudo para chamar sua atenção. Comprava-lhe rosas, dava-lhe indiretas e organizava a festa surpresa de aniversário e nada. Os meses corriam e ela não me notava da maneira que eu queria.

Até que em certo dia, em uma atitude inocente, resolvo-lhe perguntar:

-Quer namorar comigo?

Ela responde sem medo de machucar-me:

-Não! Tenho medo de estragar a nossa amizade!

Sai cabisbaixo e com uma dor que atravessava todo meu peito, que não poderia, naquele instante, ser tratada, pois não tinha sua causa biológica, mas sim moral e metafísica.

Essa dor se prolonga e o tempo me apresenta um analgésico: a esperança, que ameniza os efeitos de um “fora” e cria uma nova e falsa expectativa de um sim.

Então continue as tentativas de conquistá-la e sempre não conseguia obter êxito.

Numa certa ocasião, cansado dessa situação, resolvi utilizar a última carta do jogo: uma declaração publica de amor, pois acreditava que dessa maneira poderia convencer-la do meu amor e convidá-la a aceitar o meu cortejo.

Contratei um desses carros de loucuras de amor e fui a sua casa.

Sirene, barulho e Kenny G. como fundo musical chamavam a atenção de vizinhos, de transeuntes, e da família daquela que era a minha amada. Todos ficam maravilhados com a magia que aquele ato trazia. Entretanto, como sempre existem exceções, ela, infelizmente, se incluía nesse meio.

O locutor chamou seu nome. Ela apareceu. Ele leu a mensagem. Ela não expressou nenhuma reação. Ele disse quem a enviou. Eu apareci. Ela entrou em sua residência sem nenhuma cerimônia.

Os expectadores olhavam aquele acontecimento boquiabertos. Ninguém parecia entender nada. Eles não sabiam o que fazer, para onde olhar, se deveriam rir ou ficar sérios. Afinal, eles deviam está tentando encontrar o porquê daquela moça rejeitar aquele rapaz.

Pela primeira vez não abaixei a cabeça, sai com ela levantada. Tive a consciência de que ela não era mais aquela jovem que eu havia um dia amado. A doçura que me conquistou não fazia mais parte daquele ser.

Logo após esse episodio, iniciei uma tentativa de esquecê-la, que até hoje parece ter tido efeito. Não existe mais nenhum resquício daquele sentimento no meu coração. Não sinto mais sua falta.

Há pouco tempo, ainda tive o prazer de comprovar que o antigo ditado popular que diz que “o mundo dá voltas” é verdadeiro. Ela me procurou e dessa vez, os papéis se inverteram, ela era a apaixonada e eu que era o motivo de sua paixão platônica Não pensei duas vezes, rejeitei sua investida com a mesma intensidade que um dia ela dirigiu a mim.

5 comentários: